sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A Vizinha


Há pouco mais de um mês não escrevia nada.
Conheceu sua nova vizinha, e estava encantado com seu jeito, que era o que a tornava atraente. Jamais a vizinha pararia carros na rua, mas, para ele, a pessoa mais sublime que tinha conhecido estava ao seu lado.
Mudou a rotina para encontros casuais na varanda, como vizinhos de parede, era a melhor forma de ter um contato com a moça sem precisar forçar conversas constrangedoras. Passou a acordar às oito da manhã pra encontrá-la e trocavam no máximo um “bom dia” e um “até logo”, com um copo de café intercalando, e isso se tornou combustível para ele, que se via cada vez mais deslumbrado e obcecado.
Como não conseguia escrever sobre a razão de várias horas perdidas de sono?
Ela não era banal, e isso ia acabar matando-o.
Após seis meses exatos de quase loucura, ele viu que o melhor seria deixar o apartamento e buscar outro canto para viver. Nunca tinha encarado as situações banais, imagine as extraordinárias. Essas ele amarrava em uma trouxa e guardava para serem enterradas com ele, no dia da sua morte.
Saía preferindo não a ter conhecido. Talvez tê-la visto, e após uma excitação corriqueira e um alívio, ter escrito alguma besteira e passado pra próxima.
Com o orgulho ferido por não se reconhecer no meio de tanto drama, juntou umas últimas malas e deixou o prédio.
Cruzou com a vizinha e trocou olhares, ela não se preocupou nem em perguntar pra onde ele ia. Mas nem importava, podia ser vizinha de parede, de prédio, de rua ou de cidade, ele sabia que continuaria deslumbrado, e mesmo apenas com as lembranças, levemente apaixonado, pois já até admitia o fato.
Apesar de não ver mais a vizinha, não precisaria mais acordar às oito da manhã, e isso já se tornava interessante.